Quarta-feira, 12 de Outubro de 2011

A Democracia conduz à Tirania

Ora não é... o desejo insaciável do que a democracia encara como o seu bem supremo o que causa também a sua ruína?
– De que bem estás a falar?
– A liberdade – respondi. Esse bem ouvirás dizer, num Estado democrático, que é o mais belo de todos e que por tal razão é esse o único Estado que um homem livre pode habitar.
– Com efeito, é uma frase que ouço repetir muitas vezes.
– Pois bem – prossegui –, e é aqui que quero chegar, não é o desejo insaciável desse bem acompanhado da indiferença por tudo o resto que faz mudar o governo e o reduz a recorrer à tirania?
– Como?
– Quando um Estado democrático, ávido de liberdade, encontra à sua frente maus servidores, não conhece mais limite e embriaga-se de liberdade pura; então se os que governam não são extremamente moldáveis e não lhes dão uma completa liberdade, processa-os e pune-os como criminosos e oligarcas.
...os governantes que parecem governados e os governados que parecem governantes eis as pessoas que são elogiadas e apreciadas pública e privadamente. Não é inevitável que em tal Estado o espírito de liberdade se estenda a tudo?
– Não pode ser de outro modo.
– Sustento... que o pai se acostuma a tratar o filho como igual e a recear os seus filhos, que o filho se considera igual ao pai e não tem mais respeito pelos pais porque quer ser livre; que o meteco se torna igual ao cidadão e o cidadão ao meteco e o mesmo se passa com o estrangeiro... Em tal Estado o professor teme e lisonjeia os alunos e os alunos riem-se dos professores e mestres...
– Imagina – continuei –, que grave consequência têm todos esses abusos acumulados: tornam os cidadãos tão desconfiados, que à menor aparência de constrangimento se zangam, se revoltam e chegam, conforme sabes, a desprezar as leis escritas e não escritas para não terem acima de si absolutamente nenhuma autoridade.
– Sei isso demasiado bem...
Retomei o discurso:
– Tal é pois, meu amigo, e se me não engano, o belo e sedutor começo da tirania... é certo que todo o excesso traz geralmente uma reacção violenta... O excesso de liberdade não pode senão levar a um excesso de servidão quer no indivíduo quer no Estado... É portanto natural... que a tirania não tenha origem em nenhum outro governo que não seja o popular, quer dizer, não é verdade?, que da extrema liberdade nasce a servidão mais completa e atroz.


Platão in A República.

3 comentários:

NC disse...

Platão viveu há quase 2500 anos atrás, continua a ser uma referência, um verdadeiro farol nestes tempos de penumbra. Excerto que vem em boa hora.

Cumprimentos,

Thiago Santos de Moraes disse...

É a mais pura verdade. Num debate recente no Orkut (http://www.orkut.com.br/Main#CommMsgs?cmm=12901339&tid=5489893980235134930&start=1) usei esse trecho da República para contestar um liberal que diz que é obra da cabeça de ultramontanos a relação entre democracia liberal e totalitarismo.

Alípio disse...

Tal excerto é espantosamente lúcido e atual.

Um forte abraço
Alípio