Quinta-feira, 13 de Outubro de 2011

Ao cuidado de alguns «monárquicos»

JOÃO TIAGO – Vejo com certo espanto que julgas perfeitamente legítimos governos ou regimes que não tenham a adesão da generalidade dos governados.
JORGE GUILHERME – Não percebo porque te admiras. Se a adesão dos governados na generalidade fosse o fundamento da legitimidade, toda a revolução tornaria
ipso facto ilegítimo um regime. E até o regime que aceite tal fundamento, também, por seu turno, se tornaria ilegítimo se contra ele se erguessem alguns cidadãos. Seria o absurdo e o caos sem tirar nem pôr. O que já é pitoresco é que tão estranha doutrina também tenha sido defendida hoje em dia por cavalheiros que se proclamam monárquicos, isto é, adeptos de uma forma de governo em que a vontade dos governados não entra em nada para a designação dos governantes. A serem lógicos, o rei poderia ser deposto a cada instante, desde que a ele não aderissem os súbditos na sua generalidade. Claro que, então, a monarquia passaria a república e o rei a presidente. Enfim, sintomas de degenerescência intelectual que confrangem.
JOÃO TIAGO – Sei a que individualidades te estás a referir. Sempre me admirei que se classificassem a si mesmos de monárquicos os adeptos de teorias dessa índole. São lídimos exemplares de incoerência e confusionismo mental pelos quais não sentimos a mínima consideração, mas a que somos forçados a aliar-nos. São, não digamos os inocentes, mas antes os tontos úteis. Republicanos inconscientes sem coragem para romper com um monarquismo de rotina meramente verbal e para alinharem nas nossas fileiras, aproveitamo-los o mais que pudermos, mas não os temos em grande conta.


António José de Brito in Diálogos de Doutrina Anti-Democrática.

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